Viajar de avião é uma experiência que exige planejamento, indo muito além da compra do bilhete. Para garantir a segurança e o conforto de todos a bordo, as companhias aéreas e os órgãos reguladores impõem uma série de diretrizes que afetam diretamente o que levamos na bagagem e como nos comportamos durante o voo. Entre as dúvidas mais frequentes estão aquelas relacionadas ao uso e transporte de dispositivos eletrônicos, um tema que, se mal compreendido, pode gerar dores de cabeça no aeroporto.
Diretrizes da ANAC e o uso de dispositivos
Historicamente, o uso de eletrônicos era severamente restrito devido ao receio de que as ondas eletromagnéticas pudessem interferir nos sistemas vitais da aeronave, comprometendo a comunicação e a navegação, especialmente durante pousos e decolagens. No entanto, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) flexibilizou essas normas, permitindo que as companhias autorizem o uso desses aparelhos, desde que ativado o “Modo Avião”. Nessa configuração, funções como Wi-Fi, dados móveis e Bluetooth são desabilitadas, garantindo a segurança do voo.
Para o transporte na cabine, a Resolução 400 da ANAC estipula que o passageiro pode levar até 10 kg na bagagem de mão, respeitando as dimensões máximas de 115 cm (soma de altura, largura e profundidade). É fundamental observar as restrições para baterias de lítio: são permitidas até 15 dispositivos eletrônicos portáteis por pessoa, e não se pode transportar mais de 20 baterias sobressalentes. Powerbanks, por exemplo, devem ir obrigatoriamente na mão, jamais despachados, devido ao risco de combustão no porão da aeronave.
Especificidades das companhias aéreas brasileiras
Além das regras gerais, as empresas possuem restrições próprias. A Latam proíbe terminantemente o transporte de dispositivos Samsung Galaxy Note 7 e veículos elétricos como scooters e patinetes, tanto na cabine quanto no porão. Já a Gol alerta para modelos específicos de Macbook Pro de 15 polegadas (fabricados entre 2015 e 2017), que devem viajar desligados e consigo na cabine, nunca despachados ou carregados a bordo. A Azul, por sua vez, impõe limites de valor para carga despachada e restrições severas para monitores e televisores acima de 64 polegadas.
A estratégia por trás do conforto: um estudo de caso nos EUA
Enquanto no Brasil a preocupação gira em torno das permissões de embarque, no cenário internacional, especificamente em voos domésticos nos Estados Unidos, o foco do viajante frequente muitas vezes se desloca para a estratégia de milhas e a busca pelo melhor assento. Uma experiência recente voando com a American Airlines ilustra bem como o conhecimento das regras e do cenário pode transformar a viagem.
Diante de uma necessidade de última hora para voar de Chicago (ORD) para Los Angeles (LAX), as tarifas em dinheiro na United e na American Airlines orbitavam os 450 dólares, um valor salgado. A solução foi recorrer às milhas. O custo na American era de 14.500 milhas para a econômica ou 28.000 para a primeira classe. Embora a perspectiva de beber água em um copo de vidro na executiva fosse tentadora, a diferença de preço não parecia justificável, especialmente ao notar pelo mapa de assentos que o avião estava praticamente vazio.
O valor inesperado da classe econômica
A aposta na classe econômica provou-se acertada. Após um café da manhã tranquilo no Admirals Club, o voo revelou-se surpreendentemente vazio para um domingo de manhã. O resultado foi uma fileira inteira exclusiva, permitindo um nível de conforto e privacidade raro. Ironicamente, a primeira classe decolou com quatro assentos vagos. Mesmo após os upgrades de funcionários, a cabine premium do 737 MAX 8 não lotou.
Essa situação se repetiu dias depois em um trajeto de Nova York (JFK) para Pittsburgh. A primeira classe partiu com menos da metade da ocupação. Para um cliente com status Gold no programa AAdvantage — o nível mais básico de fidelidade —, isso teria garantido um upgrade automático. É um contraste gritante com a realidade da United Airlines, onde mesmo clientes com status elevadíssimo, como o Premier 1K, frequentemente lutam para conseguir um lugar na frente, dada a lotação constante.
Conclusão e reflexão
Essa disparidade levanta a velha máxima de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Na American Airlines, parece haver uma facilidade maior para upgrades de cortesia, mesmo para níveis iniciais de status, algo impensável em rotas hub-to-hub da concorrência. Contudo, fica o questionamento final sobre o que constitui o verdadeiro luxo: seria o assento oficial da primeira classe ou a liberdade de ter uma fileira inteira da econômica só para você, criando uma cama improvisada?
Seja verificando a voltagem de uma bateria de lítio no Brasil ou calculando o custo-benefício de milhas nos EUA, a lição é clara: a informação antecipada é a ferramenta mais valiosa na bagagem de qualquer viajante.