Com o início de mais um ano, as atenções do agronegócio brasileiro se voltam quase integralmente para o plantio da segunda safra de milho, a nossa tradicional safrinha. Apesar da produção robusta, o mercado enfrenta um cenário de equilíbrio extremamente ajustado, o que tem mantido as cotações sustentadas mesmo diante de grandes volumes colhidos.

Em estimativa divulgada em 15 de janeiro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) manteve a projeção da safrinha inalterada em 110,46 milhões de toneladas. Somando-se a um ajuste marginal na primeira safra — revisada de 25,91 para 25,90 milhões de toneladas — e às 2,51 milhões de toneladas esperadas para a terceira safra, a produção total brasileira de milho alcança a marca de 138,87 milhões de toneladas. Embora o número represente a segunda maior colheita da história do país, a dinâmica de preços conta uma história diferente, impulsionada por uma demanda interna voraz.

O aperto estrutural da oferta e demanda

À primeira vista, a situação dos estoques parece confortável. O relatório de janeiro da Conab trouxe uma revisão altista para as exportações do ciclo 2024/25, subindo de 40 para 41,5 milhões de toneladas, o que reduziu os estoques finais projetados para 12 milhões de toneladas. Ainda assim, este seria o maior volume armazenado desde a temporada 2020/21.

No entanto, o fiel da balança tem sido o consumo doméstico. O crescimento acelerado da produção de etanol de milho, aliado à demanda global aquecida pela proteína animal brasileira, transformou o mercado interno. A demanda total saltou de cerca de 92 milhões de toneladas em 2021/22 para estimados 141,1 milhões na temporada atual. Esse volume supera a produção prevista em mais de 2 milhões de toneladas, derrubando a relação estoque/uso para meros 13% — um índice bem inferior aos 19% registrados há poucos anos.

Essa pressão fundamentalista explica por que, mesmo em um ano de safra cheia, os preços do milho no Brasil subiram 7,65%, oscilando de US$ 11,76 para US$ 12,66 por saca de 60 kg. O mercado, gradualmente, redireciona seu foco das exportações para o abastecimento doméstico, tornando as projeções de embarque da Conab — na casa das 46 milhões de toneladas para a nova temporada — um tanto otimistas diante de um consumo interno que deve ultrapassar 100 milhões de toneladas.

Divergências nas estimativas e a incerteza da soja

Enquanto o milho vive esse cenário de preços firmes, a soja enfrenta seus próprios desafios. Com a colheita apenas começando, a Conab cortou sua estimativa em 1 milhão de toneladas, para 176,12 milhões, um volume inferior aos 178 milhões projetados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Como é comum nesta época, as divergências entre a Conab e o USDA permanecem acentuadas, especialmente para o milho. Para o ciclo 2025/26, o órgão americano estima a safra brasileira em 131 milhões de toneladas, quase 8 milhões abaixo do projetado pela agência brasileira. Essa disparidade adiciona uma camada extra de incerteza à precificação, que já lida com projeções muito variadas de consultorias privadas.

A lição do Meio-Oeste americano: O clima como ditador de preços

A sustentação dos preços no Brasil, contudo, não deve ser vista isoladamente. Ela reflete uma dinâmica global onde o clima exerce um papel preponderante na volatilidade das commodities agrícolas. O Meio-Oeste dos Estados Unidos, responsável por cerca de um terço da produção global de soja e milho, oferece um histórico valioso sobre como eventos climáticos extremos impactam as cotações na Bolsa de Chicago (CME), referência para o comércio mundial.

Estudos abrangendo dados de 1971 a 2019 mostram que, embora a temperatura média extrema tenha se mantido estável, a frequência de chuvas de verão na região aumentou. Historicamente, ondas de calor seco e chuvas excessivas contribuíram para aumentos contemporâneos nos preços de milho e soja. Em casos extremos, a resposta do mercado a choques climáticos chegou a provocar altas de preços na casa dos 10%. Curiosamente, o impacto de períodos excessivamente chuvosos ganhou força nas últimas décadas, alterando a percepção de risco dos participantes do mercado.

Essa sensibilidade histórica reforça a cautela atual. Com a safrinha brasileira representando cerca de 80% da produção total de milho e ainda em estágios iniciais de plantio, qualquer desvio climático pode ter repercussões severas nos preços, dada a correlação comprovada entre anomalias meteorológicas e a valorização dos grãos.

Perspectivas: Clima favorável, mas riscos no horizonte

Por ora, as notícias são boas. De acordo com a World Weather, as condições climáticas no Brasil permanecem amplamente favoráveis, apoiando o desenvolvimento inicial da segunda safra. Isso sugere que as projeções mais otimistas de produção podem se concretizar, o que seria vital para arrefecer um mercado tão esticado.

Entretanto, o produtor brasileiro deve ver os preços sustentados próximos aos níveis atuais, ao redor de US$ 12,68 por saca. Além do risco climático inerente à safrinha, o cenário geopolítico permanece como um fator de risco baixista. O Irã, historicamente um dos três maiores compradores de milho brasileiro e importador de um volume recorde de mais de 9 milhões de toneladas em 2025, continua sendo uma peça chave e imprevisível nesse tabuleiro.

Em suma, o mercado opera em um fio da navalha: com a demanda interna em alta e os estoques apertados, a dependência de um clima perfeito — tanto aqui quanto no hemisfério norte — nunca foi tão crítica para a formação dos preços.