Manifestação na Avenida Brasília repudia cerceio a cultos de religiões de matriz africana na cidade

 “Na umbanda de Oxalá
Tem mandinga,tem obá
São Jorge,Ogum Jerê
É Guerreiro de Oxalá”

Ouvindo os sambas da cantora mineira Clara Nunes é possível compreender um pouco do universo tão complexo das religiões de matrizes africanas, como o Candomblé e a Umbanda. Crenças que tem sido hostilizadas e sofrido diversos achaques ainda no século XXI.

Para combater o preconceito e reforçar o direito a livre manifestação, movimentos culturais e sociais realizaram um ato público na manhã do último domingo (20) no município. O movimento reuniu quase 300 pessoas para uma caminhada de três quilômetros ao longo da Av. Brasília.

Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, entre janeiro e setembro de 2016, foram registradas 300 denúncias de intolerância religiosa, pelo Disque 100. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, quando ocorreram 146 denúncias, foi registrado um aumento de 105%.

A reivindicação foi provocada por uma imposição da Justiça de Santa Luzia, que tentou estipular dia, horário e ditar como devem ser realizados os cultos em um terreiro de Candomblé da cidade.

De acordo com as novas regras, a casa poderia executar as atividades somente nas quartas-feiras e em um único sábado do mês, utilizando apenas um atabaque. Caso as normas não sejam cumpridas, o terreiro está sujeito a multa diária de R$ 100. O documento proíbe, inclusive, a prática de cultos silenciosos fora das datas.

Representando a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santa Luzia, a advogada Leyvida Rocha declarou não ter ciência ainda do teor da documentação. “Ainda não tivermos acesso ao documento que se refere a esta medida tomada pelo Ministério Público. Mas vamos sim tomar as providências cabíveis”, disse.

Reivindicações

O racismo é o motivo principal para que esses ataques aconteçam, como ilustrou em entrevista concedida à BBC Francisco Rivas Neto, sacerdote e fundador da Faculdade de Teologia com Ênfase em Religiões Afro-Brasileiras (FTU), baseada em São Paulo, e a única reconhecida pelo Ministério da Educação como formadora de bacharéis no tema. De acordo com ele, é impossível dissociar a intolerância do preconceito contra o africano, o escravo e o negro.

Para enfrentar o preconceito é preciso resistência, o que também é lembrado pela cantora Clara Nunes na letra da música Brasil mestiço, santuário de fé: “Vem desde o tempo da senzala […] E quanto mais o chicote estala/E o povo se encurrala/ O som mais forte se propala/ E é o samba/E é o ponto de umbanda/ E o tambor de Luanda/ é o maculelê e o lundu”.

“Precisamos mostrar essa resistência e provocar os órgãos que representam o Estado do papel que eles têm que é de garantir o direito de cada pessoa à liberdade religiosa e à liberdade de expressão. Ninguém está pedindo um favor, é um direito resguardado pela Constituição”, observou a vereadora Suzane Almada (PT), presente na manifestação.

A intenção, de acordo com o candomblecista Marcelo de Noronha, mais conhecido como Pai Marcelo, é não atacar às outras religiões. “Só queremos ser respeitados e ter nossos direitos amparados pela justiça, pois ainda ontem (sábado) um terreiro foi atacado em Contagem”, disse.

Para a vereadora de Belo Horizonte, Áurea Carolina (PSOL), os caminhos para que atitudes preconceituosas não se repitam é o reforço de políticas públicas de promoção da igualdade racial e de defesa da diversidade nas escolas, além de discutir as relações étnico raciais, questões de gênero, orientação sexual e diversidade religiosa.

“Falar sobre política no espaço escolar é muito importante para a formação cidadã e crítica para que as pessoas possam ter discernimento e se transformarem em pessoas que saibam respeitar todas as religiões”, finalizou Áurea.

 

 

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