Associação Comunitária do bairro promove oficinas, cursos e várias atividades que fortalecem e unem a comunidade local

DSC03933São seis da tarde. Em um local de difícil acesso para quem não mora na região, onde o pré-conceito e a visão deturpada sobre criminalidade permeiam o imaginário coletivo, o tom vem do berimbau. Pedaço de arame, pedaço de pau. São as oficinas de capoeira da Associação Comunitária do São Cosme.

O salão de 360m² abriga a sede da entidade desde 1999. Está localizado no encontro das ruas Abacá e Tangará, asfaltadas há apenas sete meses. Conquista suada, fruto de apenas uma das tantas reivindicações da diretoria.

Ao todo, são 30 integrantes, que buscam dar mais visibilidade à organização. A quantidade de diretores é resultado da fusão da Associação Pastoral da Saúde à Associação Comunitária, que coexistiam no mesmo bairro.

“Não fazia sentido ter dois órgãos distantes, que não se comunicavam um com o outro, mas tinham o mesmo norte, que é unir a comunidade e prestar mais atenção ao social da cidade”, explica o presidente da associação Odilei Aurélio.

Além das oficinas de capoeira, o terreno serve de palco para dança de rua, aulas e campeonatos de xadrez, biodança e aulas de inglês. “O principal objetivo da associação é fazer oficinas e projetos que retirem as crianças da rua”, completa Odilei. Tudo de uma maneira amplamente democrática. “Fazemos questão de cumprir o que está em nosso estatuto, que é nos reunirmos com a comunidade pelo menos uma vez por mês. Não adianta ter a associação sem escutarmos as demandas da sociedade”, pontua.

17886929_1933375226891962_1732572259_oSe as oficinas são voltadas, principalmente, para jovens e crianças, boa parte do trabalho da entidade é direcionado para o público idoso. “Eles nos procuram em busca de informações sobre passe livre, documentos e atendimento oftalmológico”, revela Odilei. Orgulhoso, o presidente disse que só nos primeiros meses de 2017 mais de 200 pessoas foram atendidas nos quatro mutirões organizados pela entidade.

Juntou a cabaça, virou berimbau

DSC04032Estar sempre atento. “Pés vivos – com a ponta sempre voltada para o alto –, corpo vivo”, orienta o graduado em capoeira Elisson Evandro. Lyssinho, como é conhecido em Santa Luzia, coordena as rodas da associação. Para ele, o jogo significa um resgate de sua ancestralidade e uma missão de vida.

“Isso que eu faço hoje é muito do que meu pai e minha mãe fizeram no passado. Eles tinham um projeto gratuito que ensinava capoeira para jovens com o intuito de formar um cidadão melhor. Se durante esse percurso a pessoa se tornasse um bom capoeirista, tudo bem. Mas o foco era na formação do cidadão”, disse.

Mais de 20 crianças e adolescentes participam das oficinas, que acontecem às terças e quintas-feiras, no início da noite. O que faz com que alguns pais tenham que acompanhar os filhos até a sede e, com isso, acabam se integrando ao trabalho desenvolvido pela associação. “Eles chegam como espectadores e acabam fazendo parte do grupo”, conta Lyssinho.

DSC03966Para Ederson Silva, pai de um menino de quatro anos e morador do São Cosme há 15, o projeto ajuda no desenvolvimento das crianças, tira muitos jovens das ruas e ensina disciplina. “Eu quero tentar dar uma educação melhor para o meu filho e o esporte pode ajudar”.

Xeque-mate

Se a capoeira denota agitação, movimento e sincronia, outro chamariz da associação vai por um caminho bem diferente: o da concentração. Essa é a marca das aulas de xadrez, comandadas pelo professor Diego Augusto de Souza Lages Silva, eleito em 2016 como o melhor treinador do esporte em Minas Gerais.

15442232_1872162663013219_5243123087849864999_nO título concedido a Diego pela Secretaria de Esportes não foi à toa. Seus alunos têm sido destaque em competições não apenas em Santa Luzia, mas em todo o Estado. Nos últimos anos, atletas formados pela associação conquistaram nada menos que sete campeonatos mineiros e um título dos Jogos Escolares de Minas Gerais.

Disputa política

Para sobreviver, a associação depende de parcerias, do pouco que entra com o aluguel do espaço – a preço simbólico – para a comunidade e de doações diversas, como as de garrafas pet e latinhas de alumínio. Para continuar existindo e atendendo a população, o apoio do poder público é fundamental. Muitas vezes, contudo, o jogo político relegou a segundo plano as ações sociais.

Até o ano passado, havia uma disputa local entre Odilei e o vereador Adriano do São Cosme pela preferência do eleitorado. Que, dividido, deu 528 votos a Odilei e 1.102 para Adriano. O vereador, que tentava a reeleição, recebeu 304 votos a menos que em 2012 e terminou na primeira suplência de sua coligação.

Graças a um rearranjo político (leia mais AQUI), Adriano acabou se mantendo na Câmara. Para o bem da associação, agora em 2017, as lideranças resolveram que o diálogo é o melhor caminho. “Fomos procurados para fazer uma parceria. Acho que, da mesma forma que nós, ele quer o melhor para o São Cosme”, conta Odilei. “Ele sentiu, nas urnas, que cometeu falhas em seu mandato anterior e que precisa dessas parcerias”, completa. Segundo o presidente, o vereador já confirmou presença em uma reunião no próximo dia 29, quando irá apresentar projetos para o bairro em parceria com a associação.

Adriano confirma que ficou afastado da associação nos últimos anos. “Não tem como dar aporte para uma entidade que trabalha contra você. Mas nesse mandato estamos buscando uma reaproximação, até pelo bem do São Cosme. E acho que ele (Odilei) sentiu que apoiar um vereador de fora não trouxe nenhum benefício ao bairro”.

A união é, de fato, importante. Mas não apenas entre Adriano e Odilei. Fundamental mesmo é que os moradores do São Cosme continuem apoiando e dando suporte à associação, para que a entidade siga crescendo e atingindo os objetivos que culminaram em sua fundação, muitos anos atrás.

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