15966484_10206321928885836_1889140896_oMãos que produzem, arte que transita de geração a geração, fortalece a identidade local e, ultrapassando os muros da crise, gera renda. O artesanato é um dos expoentes da denominada economia criativa, que tem se fortalecido nacionalmente para além do comércio tradicional e movimenta mais de R$ 50 bilhões anualmente no Brasil.

Em Santa Luzia, artesãos de todos os cantos da cidade ganharam mais um espaço para expor seus talentos e, de quebra, ganhar a vida. No último mês de novembro, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo criou a Feira da Estaçãozinha, instalada na antiga estação ferroviária, na Avenida Francisco Gabrich Sobrinho e que funciona todos os sábados, das 8h às 16h.

A novidade foi festejada por aqueles que se dedicam a comercializar produtos feitos por suas próprias mãos. Para Flaviana Correia, uma das expositoras locais, a proposta veio atrelada à necessidade de ocupação do espaço público em Santa Luzia.

“Anteriormente, nós estávamos apenas na Praça de Juli, mas o espaço é pequeno e a visibilidade, menor. Lá nós temos apenas 30 artesãos e aqui cabe quase o dobro”, disse.

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Comidas e produtos típicos de Minas Gerais dão aos frequentadores a sensação de pertencimento e fortalecem, também, o turismo local. O segredo, segundo Flaviana, é a delicadeza. “O artesanato envolve amor. Quem faz artesanato gosta do que faz, independentemente da condição financeira e, a partir disso, nós acabamos cativando e surpreendendo as pessoas. Tem muitos produtos aqui que são feitos das cascas de ovos, das latinhas de refrigerante. Tem produtos, inclusive que são típicos daqui de Minas, como os passarinhos feitos da fruta de jatobá. São trabalhos muito bonitos”, completou, orgulhosa.

A importância econômica e turística do artesanato para o município

A luta pela valorização do trabalho manual e da produção do artesanato é antiga. Foi travada após a Revolução Industrial, quando as máquinas e o capitalismo voraz, incipiente, conquistaram o seu espaço, sobrepujando-se às manufaturas. Hoje, o artesanato impõe sua importância social por meio da cultura, sustentabilidade ambiental e geração de renda.

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“Temos à mão materiais descartáveis que poderiam estar indo para o lixo. Reciclamos coisas que qualquer pessoa pode ter em casa. Tudo o que eu sei aprendi só olhando. Comecei a aprender o crochê com a minha mãe e depois com uma prima”, contou outra expositora local, Joseni Rodrigues. “Eu só trabalho com o artesanato. Infelizmente não dá pra viver ou sustentar uma família só com a venda, mas o dinheiro que entra da exposição nas feiras se tornou um suporte muito bom”, comemora ela.

No primeiro sábado de 2017, o morador de Santa Luzia Irvinng Paiva aproveitou para visitar a feira e gostou do que viu. Para ele, o novo espaço é uma oportunidade para que o povo dê mais atenção a pontos históricos da cidade que já não são mais utilizados, como a Casa da Estação, atualmente fechada. “Nessa parte histórica de Santa Luzia é raro a gente ver alguma coisa, por isso é bom ter uma diversidade cultural. Espero que as pessoas participem mais, mostrando a verdadeira identidade de nossa cidade e criando uma pequena porção de empregos que sirva para tirar jovens da rua. A cultura feita na cidade é ínfima. Geralmente, eu participo mais das feiras de Matozinhos e Belo Horizonte. Essa é a primeira que eu venho prestigiar”, confessou.

De olho nas barraquinhas de crochê, a aposentada Vanda Maria ressaltou a qualidade do atendimento dos vendedores e a importância do local para a geração de renda. “Eu acho que a feira, o artesanato, geram muito emprego para as pessoas. É a primeira vez que eu venho visitar o espaço e gostei muito”, disse ela, que costuma frequentar a feira da Pracinha de Juli, mas irá dar preferência à novidade devido, principalmente, à localização.

Divulgação precária

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A despeito da qualidade dos produtos e o preço convidativo, o movimento ainda está aquém da expectativa dos artesãos. Para eles, falta uma divulgação mais maciça por parte da Prefeitura. Não bastasse isso, os expositores pagam uma taxa usada para cobrir serviços que deveriam ser ofertados gratuitamente pelo poder público.

Maria da Ajuda Coelho gasta cerca de R$ 40 para ir e voltar da feira. Dona de um dos espaços mais frequentados pelo público, ela vende salgados fritos – a coxinha de catupiry é ótima! –, porções de torresminho e café. Além do investimento em matéria prima, ela paga R$ 20 de taxa pelo espaço e usados, também, para custear outros benefícios que não são cedidos gratuitamente pela Prefeitura, como banheiros químicos.

“Por enquanto, o movimento está fraco, está faltando divulgação. Mas a gente é persistente, eu acredito que vai melhorar, pois nós iniciamos no final de ano, um período de muita correria, então as pessoas ainda não tiveram a oportunidade de parar para observar. Por enquanto, nós estamos pagando para trabalhar. Além da taxa, tenho que comprar os alimentos e gastar com a gasolina de ida e volta. O que vendo ainda não cobre o investimento”, revelou.

O dinheiro das taxas é administrado por uma comissão formada pelos próprios feirantes, que usa o valor arrecadado para investir em infraestrutura. De acordo com Sandra Leal, uma das integrantes da comissão, os expositores de artesanato pagam R$ 40 por mês e quem vende comida, R$ 80. Segundo ela, não apenas o movimento atingiu seu ápice, como a própria ocupação por parte dos artesãos.

“Temos espaço para 60 barracas, mas até agora somente 30 compareceram. A feira ainda não teve a repercussão esperada, muito em função da data em que foi lançada. Nossa expectativa é que pelo menos 200 pessoas passem por aqui a cada sábado”, disse Sandra, que vende peças de patchwork, que são trabalhos manuais feitos de pedaços de tecidos emendados.

Se ainda não atingiu o ponto ideal, a feira já serviu para animar os donos dos comércios localizados no entorno da antiga estação. O Armazém e Restaurante da Cidoca, que fica defronte à praça, já teve seu movimento aumentado nos sábados, principalmente na hora do almoço, como garantiu a gerente da casa, Sueli Alves de Deus. “A cada final de semana aparecem mais pessoas. É bom para eles e para nós também”, comemorou. 

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