Em Santa Luzia, eleição em março gera invasão de fakes e ataques a pré-candidatos no Facebook

Quem tem o costume de participar de grupos que discutem a política de Santa Luzia no Facebook já se acostumou. Todos os dias, são dezenas de postagens, feitas por usuários falsos (fakes) – alguns bem elaborados, outros criados sem um pingo de criatividade – atacando este ou aquele possível candidato nas eleições suplementares previstas para o dia 4 de março. Os nomes mais cotados a disputar o pleito – Sandro Coelho (PSB), Christiano Xavier (PSD), Aguinaldo Campos (PSDB) e Ilacir Bicalho (PMDB) – são os alvos mais recorrentes, evidenciando uma indústria de fake news (notícias falsas, em inglês) que só tende a crescer até o dia da votação.

O fenômeno, obviamente, não é uma exclusividade de Santa Luzia. Como em 2018 os brasileiros voltarão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, táticas de guerrilha tomam conta das redes sociais. O que tem preocupado a Polícia Federal (PF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que decidiram criar, em conjunto com outros órgãos federais, um grupo de trabalho em Brasília para discutir maneiras de combater as fake news durante as eleições.

No final de 2017, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, que assumirá a presidência do TSE no dia 6 de fevereiro, cobrou do diretor-geral da PF, Fernando Segovia, e do vice-procurador-geral eleitoral, Humberto Jacques de Medeiros, que seja criada uma força-tarefa para enfrentar o problema. “Tem que haver um mecanismo de obstrução a fake news para que elas não sejam capazes de influir no resultado da eleição”, disse Fux durante um seminário do TSE.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o chefe da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor) da PF, Eugenio Coutinho Ricas, acenou com a possibilidade de uma lei que permita a adoção de “medidas mais duras de repressão à prática, como operações de busca e apreensão para coleta de provas”, localizando os autores, retirando as notícias falsas do ar e punindo os responsáveis.

Impacto das fake news

A preocupação com o impacto das fake news no Brasil levou o Facebook a apoiar dois projetos que ajudam a identificar notícias falsas veiculadas na rede social. O primeiro é um curso online batizado de “Vaza, Falsiane”, com aulas gratuitas voltadas para professores e para um público mais jovem. A outra medida é a criação de uma ferramenta integrada ao Messenger que ajudará os usuários a separar notícias falsas das verdadeiras. A previsão é que os sistemas estejam disponíveis nos próximos meses.

“As fake news políticas são, como já foi comprovado, usadas como estratégia por organizações ou partidos”, disse o professor e especialista em jornalismo online, Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o jornalismo das Américas, da Universidade do Texas. “O problema, como todos os tipos de notícias falsas, é que se joga com as emoções. Elas constituem basicamente o que as pessoas gostariam que fosse verdade. Quando alguém recebe algo pelo que anseia, despreza o fato de que seja mentira e leva aquilo adiante”, completou Rosental, em entrevista ao jornal gaúcho Zero Hora.

Mercado da desinformação

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. A célebre frase, atribuída ao ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels (sem comprovação de autoria, contudo), é a síntese do que se espera como resultado quando se apela para fake news. A prática, contudo, é antiga no meio político. As redes sociais tiveram tão somente o condão de ampliar o alcance de boatos e desinformação, contando com a ajuda dos próprios usuários, como explicou o professor Rosental.

Antes do Facebook e do Whatsapp, partidos e comitês de comunicação de campanhas se valiam de inúmeros métodos para atacar adversários com mentiras e inverdades. Pessoas contratadas eram espalhadas pela cidade em lugares de muita concentração popular – filas de banco, pontos de ônibus e salões de beleza, por exemplo – e forjavam diálogos bem ensaiados, que pareciam uma conversa comum, desfiando mentiras e histórias falsas sobre os candidatos rivais. Às vésperas da eleição, cartas anônimas eram deixadas de porta em porta, na calada da noite, com calúnias e ataque mais incisivos, muitas vezes direcionados para a vida pessoal dos adversários, sem que houvesse tempo hábil para desmentidos e esclarecimentos.

Hoje, qualquer campanha é dividida entre dois grupos específicos. Um é responsável por construir uma imagem positiva do candidato, de modo a convencer o eleitorado de que ele é a melhor opção. Outro cuida da desconstrução dos adversários, seja de modo direto, amplificando falhas e destacando as diferenças entre um e outro, seja de modo indireto, por meio da desinformação, reduto fértil para a disseminação de fake news.

Checar antes de compartilhar

Em tempos de eleição, passa a ser fundamental conferir se determinada notícia que aparece na timeline, em um grupo ou mesmo no whatsapp é real antes de compartilhá-la com seus contatos e permitir que a mentira ou boato se espalhe de modo orgânico – resultado ideal para quem está por trás da indústria de fake news. O site Apptuts elencou 12 passos de checagem que devem ser dados por todos aqueles que não querem se deixar enganar pela desinformação. Confira:

  1. Cheque a fonte da fonte
  2. Aprenda sobre o site que está visualizando
  3. Evite sites (ou fanpages) conhecidos por sensacionalismo
  4. Leia a matéria completa, não apenas sua chamada
  5. Preste atenção à URL
  6. Cheque outras notícias do mesmo site (ou fanpage)
  7. Confirme a confiabilidade do autor
  8. Cheque por erros de formatação ou ortografia
  9. Pesquise a notícia no Google
  10. Confira a data de publicação dos posts
  11. Utilize o Google Notícias
  12. Treine suas habilidades de identificar fake news

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