Fernando César fala da aproximação com o governo do Estado e com o Ministério Público, faz um balanço sobre os primeiros dias no cargo e promete transparência

Na hora da necessidade, a experiência ensina que devemos recorrer aos amigos. É assim que o novo prefeito de Santa Luzia, Fernando César de Almeida (PSDC), tem agido para governar a cidade. No cargo há pouco mais de 15 dias, Fernando, eleito vice-prefeito em 2016, confessa que conta com dois sustentáculos importantes: o Ministério Público Estadual e o Governo de Minas Gerais.

“Na oportunidade que tivemos de encontrar o governador (Fernando Pimentel, do PT), fomos pedir socorro ao Estado. Que o Estado nos ampare”, disse Fernando, que recebeu o Observatório Luziense na manhã desta sexta-feira (29). “Essa aproximação já deveria ter sido feita em governos passados. Fomos buscar suporte para o município, uma tentativa de trazer o melhor para Santa Luzia”, completou.

Desconhecido no cenário político municipal e tendo recebido a incumbência de assumir a prefeitura de maneira repentina – após a prisão da ex-prefeita Roseli Pimentel (PSB), suspeita de participar do assassinato do jornalista Maurício Campos Rosa –, Fernando busca, nos diálogos, superar os obstáculos que têm surgido à sua frente. Além do governo estadual, outro de seus interlocutores mais recorrentes é o Ministério Público.

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“Todas as nossas ações têm sido pautadas pelo Ministério Público, que tem nos auxiliado muito nesse processo. Temos levado as questões mais difíceis de resolver para eles, que têm nos orientado muito bem”, ressaltou Fernando. O que, segundo ele, é a melhor maneira de administrar a cidade. “A parte mais difícil de ser prefeito é a integração entre as instituições. Está tudo muito pulverizado. Acho que estamos conseguindo fazer um trabalho diferente, com boas relações entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Quando os poderes se unem, o trabalho fica mais fácil”.

Secretariado

A proximidade com o governo e com o MP, contudo, não tem influenciado na escolha de seus assessores mais diretos, garantiu Fernando. “Não houve acordo para a definição do secretariado”, diz, a despeito de alguns dos escolhidos terem passado, anteriormente, pela Cidade Administrativa, como a secretária de Meio Ambiente, Maria da Glória de Melo Pinheiro, o secretário de Segurança Pública, Trânsito e Transportes, Waldemiro Gomes de Almeida Filho e o ex-secretário de Saúde – já exonerado – Diran Rodrigues de Souza Filho.

Para montar sua equipe, Fernando disse que pesquisou muito. “Conversei com secretários de Estado, com secretários municipais de Belo Horizonte. Estou buscando, junto com a equipe que me auxilia, pessoas técnicas, evitando cargos políticos. Quem continuou (fazendo referência aos nomes que faziam parte, anteriormente, do governo Roseli Pimentel) é porque são pessoas que a gente já conhece, que têm um trabalho conhecido na cidade”.

Montar uma equipe com mais nomes oriundos de Santa Luzia não foi por falta de tentativa, confidenciou o prefeito. “Não busquei apenas fora da cidade. Convidei pessoas de Santa Luzia, mas que não aceitaram vir. Alguns até hoje não me deram resposta. E a cidade não pode parar. Se não tivemos retorno de pessoas daqui, encontramos profissionais de fora para fazer a cidade andar”.

Planos para o futuro

Nesse momento da entrevista, a conversa foi interrompida pela secretária do prefeito, Denise Rangel, que o acompanhava no gabinete. “É difícil pra gente trabalhar com Ministério Público, polícia, auditoria aqui dentro. Você começa a trabalhar em um computador, a polícia vem e o leva embora. Você começa a trabalhar, a polícia vem e abre tudo, vasculha tudo e você tem que parar seu trabalho”, desabafou.

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A auditoria prometida pelo prefeito tão logo assumiu o cargo, contudo, ainda não começou. Segundo ele, o processo de licitação para a empresa que irá comandar o processo já está em andamento, mas ainda não há uma data definida sequer para que o edital seja publicado. Os levantamentos feitos até agora têm sido conduzidos pelo diretor de Comunicação Sérgio Motta, que recentemente assumiu também a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Planejamento.

Foi o próprio Sérgio, também presente no gabinete durante a entrevista, que explicou a ida do prefeito à Câmara na última terça-feira (26) e o pedido de dotação orçamentária feito ao Legislativo. “Os vereadores fizeram confusão entre suplementação e dotação orçamentária. São coisas completamente diferentes. A prefeita (Roseli Pimentel) pediu um dinheiro extra, isso é uma coisa. Ela gastou os 25% a que tinha direito de mexer no orçamento. Estamos pedindo agora o direito de, nos próximos três meses, de mexer no orçamento. Não é dinheiro novo. Mas ficamos sem ter até como pagar a folha (salarial). Fomos à Câmara dizer isso para os vereadores, não para pedir dinheiro. Não queremos um centavo”.

Sérgio garante que “o cofre da Prefeitura está fechado, só se paga o essencial”. O que passa, de acordo com Fernando, com seu projeto de reorganização da cidade. “Santa Luzia precisa ser reorganizada como um todo. Não tínhamos planejamento, não tínhamos um plano diretor urbano. Não vou dizer nem que estamos replanejando, mas planejando, porque não havia planejamento nenhum aqui”, acusou.

Relação com Roseli, processos e futuro político

Sobre sua relação com a ex-prefeita Roseli, Fernando repetiu o que já havia dito em outras entrevistas. “Nunca despachei com ela um dia sequer. Tinha algumas atividades externas, coisas pequenas, mas não tinha acesso nenhum”. Esse distanciamento o levou a cogitar, inclusive, a renúncia. “Pensei em renunciar, sim. Por estar em um lugar sem o devido trabalho adequado”, confessou.

Vir a público e denunciar o isolamento a que a companheira de chapa lhe impôs não passou por sua cabeça, entretanto. “Não é uma decisão fácil de se tomar, até pensando no impacto para a população, para a administração da cidade. Quando há responsabilidade de vidas em suas mãos, você tem que tomar muito cuidado com o que fala”.

Se na Prefeitura Fernando e Roseli não se encontravam, nos tribunais seus nomes andam juntos nos inúmeros processos de cassação enfrentados pela chapa desde as eleições. Só que agora, o prefeito conta com uma nova equipe de defesa, providenciada por seu novo partido, o PSDC. “O partido deu o suporte necessário para minha defesa. Sei que estou com uma espada sobre minha cabeça, mas acredito na Justiça. E não posso parar a cidade por conta disso. No tempo que estivermos aqui, faremos o melhor. Temos que fazer”, disse Fernando, que deixou o PRB tão logo assumiu o Executivo “por não ter tido suporte”.

Se a cassação da chapa se confirmar e novas eleições forem convocadas, o prefeito não descartou encarar o pleito caso não perca seus direitos políticos. “Vamos pensar nisso mais para a frente, não quero ser leviano. A vontade política vem porque quando você começa a fazer um trabalho e percebe um resultado positivo, ainda que pequeno, pensa: ‘há luz no fim do túnel’. Se eu puder fazer parte, nada impede”, finalizou.

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