Gui Ventura levou sua música para o mundo. Agora, quer ser mais conhecido em sua própria cidade

“Bença, vô.

“Deus te abençoe, meu filho”.

É com esse diálogo singelo, comum a tantos brasileiros, que Guilherme Ventura começa seu primeiro disco, Dois Lados (confira vídeo com todas as músicas no final da matéria). A benção do avô, envolvida por um batuque de tambor, principia a primeira das dez músicas que fazem com que quem ouve o álbum passar por uma experiência sinestésica.

A estrada até a construção do primeiro CD começa em Santa Luzia e tem como fonte de inspiração a família de Guilherme. Irmão caçula de um poeta e de um instrumentista e filho de uma artesã, em sua família a arte se impôs de formas variadas.

Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento

“A primeira memória musical – de palco – que tenho é de uma apresentação que eu fiz aos 11 anos, na Escola Estadual Gervásio Lara. Cantei a música ‘Alegria, Alegria’, do Caetano Veloso. Nesse dia a escola estava cheia, foi uma sensação muito boa”, relembrou.

O início da carreira não foi fácil. Como acontece com tantos outros artistas, faltou – e falta – apoio para dar vazão à sua criatividade. Para Gui, o problema de desenvolvimento cultural que assola Santa Luzia não é uma prerrogativa da cidade, mas uma carência nacional. Para ele, falta interesse político aos governantes na hora de oferecer experiências culturais efetivas para a população.

“As pessoas não entendem a importância que a arte tem como uma ferramenta educadora. Pensando na minha experiência, até certa idade tudo que construí intelectualmente foi devido à arte. Sem ela, eu não teria conhecido muita coisa”.

Para Guilherme, o maior problema de Santa Luzia é não valorizar os talentos locais. “Nossa cidade tem artistas maravilhosos e completamente diferentes uns dos outros. Johnny Herno, Seu Ribeiro, Tom Nascimento, tantos outros. Pessoas que são reconhecidas fora de Santa Luzia, mas que aqui não são, pelo menos não da maneira como deveria ser. Me coloco nesse balaio, não por soberba, mas porque tive mais facilidade para me apresentar no Senegal e na França que dentro da minha própria cidade”, lamentou.

Na estrada

Aos 29 anos, Guilherme foi selecionado a representar o coletivo cultural Art 22 junto a outros seis artistas mineiros em um intercâmbio artístico. A oportunidade surgiu com o projeto Artes Sem Fronteiras da ONG europeia NICOLA  que é voltado para formação de agentes culturais de bairros periféricos de Belo Horizonte e Região Metropolitana.

O projeto reuniu 32 artistas do Brasil, França, Senegal e Inglaterra. O objetivo era, após uma residência artística, os jovens produzissem materiais didáticos que propiciassem a outros jovens acesso a novas linguagens artísticas e dicas sobre gerenciamento de suas próprias carreiras. Mas na hora de produzir, surgiram algumas dificuldades para os brasileiros envolvidos.

“Aqui no Brasil, existe uma diversidade muito grande quanto à produção musical. Não existe um formato rígido, preestabelecido. Nos Estados Unidos e na Europa, isso é mais engessado. Na França, quando entramos no estúdio para gravar, fomos ridicularizados, mas soubemos nos impor. Queríamos que o trabalho tivesse digitais brasileiras. Mas foi bom para sairmos de nossa zona de conforto.

A(r)tivista em cena

Além de divulgar o disco lançado em julho, Gui se divide em uma série de outros projetos musicais, como o Imune – Instante da Música Negra, que propõe um debate sobre racismo institucional na música. A mostra encerrou antes do Natal, mas já está sendo pensada para voltar à cena em 2018.

Em meio a tantas tarefas, ele acalenta a vontade de gravar um disco com a cantora – e sua namorada – Maíra Baldaia (na foto ao lado). Ela lançou seu primeiro CD em dezembro de 2016 e, desde então, os dois têm se apresentado juntos em BH e São Paulo. E não desiste de tentar uma data para se apresentar para os luzienses no Teatro Municipal. Enquanto não consegue, continua a encantar outros públicos com sua música.

 

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