Em 1988, Madalena de Oliveira venceu as eleições, mas foi impedida de assumir sua vaga na Câmara. Trinta anos depois, ela conta sua história

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Quem passa diariamente pela Câmara Municipal de Santa Luzia (MG) nem imagina que, logo ali, no gabinete da vereadora Suzane (PT), se encontra a primeira mulher eleita vereadora do município. Candidata pelo Partido dos Trabalhadores em 1988, Madalena Oliveira ganhou a eleição, mas não foi empossada.

Voltando um pouco em sua história, no comecinho da década de 1980, quando quem governava a cidade era o prefeito Rui Avelar, é possível traçar uma linha de acontecimentos que a levaram à candidatura. Neste período, Madalena organizava junto a Igreja Católica as famílias que se aglutinavam em busca de moradia e deu forma ao movimento responsável pela ocupação dos conjuntos habitacionais mais populares de Santa Luzia, o Movimento Sem Casa.

Em dezembro de 1986, mês em que reina o espirito da caridade, o grupo, já firmado, se preparava com uma Novena de Natal para a primeira ocupação em um terreno que pertencia ao Clube Atlético Mineiro. As famílias foram assentadas. Por pressão, o prefeito cedeu e fez um pacto com o Atlético, entregando ao clube outro terreno. A ocupação originou a Vila Santa Beatriz, que fica entre os bairros Londrina e Asteca.

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A segunda ocupação ocorreria em agosto de 1987 quando, de acordo com Madalena, o grupo já estava bem organizado e com muitas famílias envolvidas. Ocuparam então o espaço que hoje é conhecido como Bairro Pantanal e um pouco do Bairro Nova Esperança, então pertencente à extinta MinasCaixa.

Na segunda semana de agosto houve uma ação despejo cumprida violentamente e que desalojou 402 famílias.  “Nesse período, tivemos a autorização do Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Serafim, para acampar nas principais igrejas da cidade. Passamos seis meses nas igrejas Matriz e do Rosário, na Rua Direita. Quando o prefeito tentou interferir, ele soube que era Dom Serafim quem tinha autorizado a nossa permanência. Ele rompeu com o Cardeal, o que levou à sua derrota política no ano seguinte, pois, embora a Rua Direita ficasse com muita raiva da gente pelas ocupações, o prefeito atacou um homem santo, e isso teve um peso muito grande”, lembra Madalena. Mais tarde, essas famílias que sofreram a ação de despejo deram origem ao Bairro Paulo VI, localizado na região Nordeste da capital mineira.

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Em 1992, o movimento já estava articulado em nível estadual. “A gente se reunia a cada três meses com cerca de 40 municípios de diversas regiões do Estado. Um movimento bem organizado e, em seguida, passamos a participar de uma articulação nacional que é  o Movimento Nacional de Luta Pela Moradia. Eu fiquei nesse movimento até 2003, quando a sede se mudou pra São Paulo”, explica.

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Ganhou, mas não levou

Em uma cidade tonicamente conservadora, Madalena lançou a sua candidatura a vereadora em 1988. Naquele ano, o PT finalmente se firmou na esfera política nacional, vencendo as eleições em três capitais: São Paulo (Luíza Erundina), Porto Alegre (Olívio Dutra) e Vitória (Vítor Buaiz).

Encabeçada à época pelo mesmo padre que foi o mentor da criação do Movimento Sem Casa, Padre Décio, a campanha, que começou tímida. Os panfletos eram reproduzidos em velhos mimeógrafos – antigas copiadoras à base de álcool. Apesar da penúria, Madalena  obteve 305 votos , o que, na época, era suficiente para que uma pessoa fosse eleita vereadora no município.

“Quando foi divulgado o resultado, eu tinha vencido! Aí foi aquela euforia, né! Isso foi em uma segunda-feira. Na quinta-feira, nós fomos até o Fórum para ouvir o resultado do juiz eleitoral e a minha vitória foi confirmada. Eu estava eleita vereadora. A diplomação seria na sexta-feira da semana seguinte. Dali a nove dias”, recorda.

No entanto, o resultado da eleição não se sustentou mais que uma semana. “Por algum motivo que já não me lembro qual, a gente voltou ao fórum na sexta-feira pela manhã. Chegando lá, surpresa: o resultado mudara, eu não tinha sido eleita!”, conta Madalena. “Quem entrou no meu lugar foi outra mulher, Lourdinha Pessoa. Mas não houve recontagem de votos. O mapa eleitoral, onde tinha todas as urnas, estava todo rasurado. Fomos procurar o juiz e soubemos que ele não tinha amanhecido em Santa Luzia. Sequer diplomou os eleitos, desapareceu da cidade”, denuncia.

Para Madalena, os erros que impediram sua diplomação poderiam ter sido identificados ainda na contagem dos votos, à época feitos manualmente, com cédulas de papel. “O PT teve votos na legenda a dar com pau, superiores até aos candidatos do próprio partido. Mas, por ingenuidade ou até por desinteresse em defender uma mulher, o partido não tomou as providências necessárias na fiscalização e na defesa de meus direitos. Foi aí que percebemos o quanto fomos ingênuos em achar que o pessoal iria engolir a candidatura de uma mulher de esquerda que lutava por moradia com naturalidade”.

“Falcatrua, maracutaia”, resume Madalena, ao relembrar o incidente. “As forças políticas simplesmente decidiram que não iriam empossar uma mulher do PT. Sabiam que tudo ficaria por isso mesmo, não havia medo de serem punidos, o que ainda acontece na política. Todos sabiam que nosso grupo iria denunciar as mazelas do governo municipal, o que já fazíamos em um jornalzinho que tínhamos na época, o Estopim”. Uma das principais denúncias era com relação ao esgoto a céu aberto que infectava o distrito de São Benedito e que era o calcanhar de Aquiles de todas as administrações.

A luta continua, companheira

A derrota fez com que Madalena desistisse de se candidatar novamente, mas não arrefeceu seu trabalho em prol dos mais pobres. Até 2003, quando a sede do Movimento Nacional de Luta pela Moradia migrou para São Paulo, ela seguiu com sua missão. “Foram 30 anos nessa batalha, mas vi que era hora de dar lugar a outras pessoas, era preciso renovar. Pra mim, foi um aprendizado enorme. Quando eu comecei no movimento, era muito estourada, visceral. Aprendi a não tratar tudo com o fígado, pois em um movimento desse porte, se você mete os pés pelas mãos, prejudica aqueles que mais precisam”, pondera.

Tão logo deixou a secretaria-executiva do movimento, Madalena foi convidada para integrar o gabinete da vereadora Suzane (PT), então com um ano e nove meses de mandato.  “A Suzane tinha feito uma composição jovem para o seu mandato e precisava de uma pessoa mais experiente, que pudesse representar o partido e contribuir com o crescimento da juventude que estava lá. Aí eu fui chamada, mesmo sem ter votado na Suzane ou trabalhado na campanha dela”, confessa Madalena, que atualmente é chefe de gabinete da vereadora.

Hoje, quase três décadas depois de sua frustrada candidatura, Madalena lamenta a situação em que o PT se encontra. “Uma minoria errou, mas, com isso, fez da maior ferramenta que os brasileiros já tiveram, que foi o PT, a merda que temos hoje em mãos. Uma ferramenta partidária que tinha muita credibilidade e, hoje, passa por essa situação”. O que não a impede de seguir com sua luta. Perto de completar 60 anos, Madalena se formou em Serviço Social e dá prosseguimento em seus estudos em uma pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas. Sempre com o objetivo que sempre trilhou: defender os mais pobres e os mais necessitados de Santa Luzia.

 

 

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