Derrotado nas urnas após quatro anos de uma das administrações mais criticadas na história de Santa Luzia, ex-prefeito promete que reconquistará a confiança da cidade

16402394_1459107854140520_343592374_nEle foi do céu ao inferno em quatro anos. Pulou de 63.724 votos em 2008 (62%), quando foi eleito – aclamado talvez seja um termo mais preciso – o 22º prefeito da história de Santa Luzia, para 9.956 em 2012, quando tentou a reeleição. Terminou a disputa em quarto lugar, com apenas 9,3% de apoio de uma cidade que, em pouquíssimo tempo, deixou de amá-lo para rejeitá-lo profundamente. A discrepância talvez servisse para sepultar de vez a vida política do médico Gilberto da Silva Dorneles. Menos para ele. Que, confiante, promete: “vou voltar!”.

Como administrador, Dr. Gilberto não deixou saudades em Santa Luzia. Ainda hoje, cinco anos após sua saída da prefeitura, as pessoas se lembram do período de maneira negativa. Quando alguém quer criticar algo que não funciona na gestão pública, é natural dizer que “está pior – ou tão ruim – que na época do Dr. Gilberto”. O que, para ele, é motivo de tristeza.

“Fico decepcionado quando vejo as pessoas dizerem que não fiz nada, principalmente para a saúde. Nunca quis ser um prefeito para a cidade, nunca me preocupei com obras. Quis ser um prefeito para o povo. Por isso, meu foco se deu em três pilares: saúde, educação e assistência social. Por isso quero voltar, para ajudar a quem precisa. Ainda não realizei esse sonho”.

A tal de governabilidade

16395627_1459107857473853_1064946463_nDr. Gilberto tinha 41 anos quando venceu as eleições, o que fez dele o prefeito mais novo na história de Santa Luzia. Já tinha sido vereador (o mais votado na cidade nas eleições de 2000) e candidato a vice-prefeito (ao lado de Cláudio Maciel, perderam para José Raimundo por menos de 1.800 votos em 2004). Então no PMDB, conseguiu reunir outros 11 partidos em torno de sua chapa: PSDB, PTB, PRP, PSDC, PSB, PTN, PPS, PC do B, PSC, DEM e PHS. Além de uma série de outros apoios informais.

“Em uma chapa tão grande, você tem que encaixar muita gente no governo para conseguir governar. Eu não conhecia as pessoas que estavam entrando, não tinha conhecimento do que elas pensavam para a cidade”, confessa Dr. Gilberto. O que vale, inclusive, para seu próprio vice, Aguinaldo Campos. “Eu não conhecia o Aguinaldo, não sabia quem ele era. Foi Zé Raimundo quem o colocou na chapa”, diz, com referência ao adversário de 2004 que, quatro anos depois, passou a aliado.

Essa salada partidária foi um dos motivos da derrocada, em sua própria visão. Para Dr. Gilberto, um de seus principais erros foi se cercar de pessoas que não pensavam como ele. E que, no decorrer da administração, o abandonaram. “A Secretaria de Desenvolvimento Social, por exemplo, era do PT. Do partido. Nas eleições de 2012, eles me traíram. Fui traído pela Cristina e por seu irmão, Miguel Corrêa Jr. Meu vice me abandonou, me deixou sozinho”.

O ex-prefeito admite que a pouca experiência pesou. “Tive muita imaturidade política”, confessa. Hoje, ele garante que centralizaria em suas mãos as decisões mais importantes. “E investiria mais em comunicação. Não fiz marketing, as pessoas não ficaram sabendo tudo que fizemos. Foi meu segundo maior erro, certamente”.

Rixa com Calixto

Se não havia informação, sobrou contrainformação. Dr. Gilberto afirma que sofreu os quatro anos de seu mandato com notícias falsas divulgadas a mando de seu maior adversário político na cidade, o ex-prefeito Carlos Alberto Calixto. “Ele mesmo me disse, após as eleições de 2012, que pagava para que as pessoas falassem mal de mim nas ruas”, acusa.

16425388_1459107874140518_1013517412_nDr. Gilberto não disfarça o rancor que nutre por Calixto. “Ele só fez o que lhe interessava, e não à cidade. Fez questão de me dizer que não daria continuidade a nenhum projeto que eu havia começado”. E cita exemplos, como o restaurante popular, que assegura ter deixado licitado, o Centro Integrado de Defesa Social, o convênio com o Hospital São João de Deus e a construção de nove creches, cuja verba, já liberada, teria sido devolvida pelo rival.

“Calixto morreu do próprio veneno. Ficou doente, chegou no PA e não tinha atendimento. Quando eu saí, deixei tanto o PA quanto o hospital funcionando”, afirma. Saúde é um tema delicado para o médico, que não se conforma com as críticas que sua gestão recebe nessa seara. “Eu fui o prefeito que mais investiu em saúde em Santa Luzia. Antes, não faziam nenhum tipo de exame mais elaborado. Não tinha mamografia, não tinha ultrassom. Quando deixei a prefeitura, o Samu de Santa Luzia era destaque na região metropolitana. Tínhamos 75 equipes do Saúde da Família, hoje são quantas? Há dois, três anos, eram apenas dez”.

A despeito disso, Dr. Gilberto revela que já no segundo ano de seu mandato começou a sentir que não seria reeleito. Mas que, por orgulho, acabou se candidatando novamente, dessa vez pelo PSD. “Me candidatei para sentir o retorno da população. Não quis acreditar nas pesquisas, que já apontavam minha rejeição. A derrota doeu muito. Muito. Mas o tempo é o melhor remédio”, receita o médico. Ou o político. Ou ambos.

Eleições de 2016

A morte de Calixto no início de 2016 colocou fogo na política luziense. A falta de lastro da vice-prefeita Roseli Pimentel ensejou uma série de balões de ensaio nos meses que antecederam o registro das chapas que concorreriam à prefeitura. Dr. Gilberto, que havia se filiado recentemente ao PSL, teve seu nome cogitado na disputa. O que, para ele, não passou de uma bobagem. “Nunca pensei, em momento nenhum, em me candidatar”.

Embora procurado por três candidatos – Ilacir Bicalho (PMDB), Cristina Corrêa (PT) e Dr. Christiano Xavier (PSD), preferiu não se envolver em nenhuma campanha. Mas revela seu voto. “Por amizade, votei no Ilacir”. Um amigo que, segundo ele, não deveria ter se candidatado. “Era a vez do Christiano. Mas Aguinaldo e Ilacir foram orgulhosos, faltou humildade”, critica.

Apesar de achar que a oposição errou ao lançar tantos nomes na disputa, o resultado da eleição o surpreendeu. “Não esperava a vitória da Roseli”, diz ele para, em seguida, criticar duramente a herdeira do legado político de seu rival Calixto. “Como gestora, ela é desprovida de tudo. De competência e de amor ao próximo. Se realmente existir justiça, ela não termina seu mandato. Só foi eleita porque abusou da máquina pública. Fez pressão em muita gente, principalmente nos professores”.

Futuro

Durante as quase duas horas de conversa com o Observatório Luziense, Dr. Gilberto estava agitado. Depois de tantos anos de isolamento, sentia que era sua chance de falar o que, aparentemente, ficou engasgado por muito tempo. Entre uma xícara e outra de café – foram quase dez ao longo da entrevista –, não parou de rabiscar em um bloco de papel à sua frente. Cinco anos após deixar a prefeitura, os cabelos e a barba foram invadidos pelo tom acinzentado que a idade impõe. Perto de completar 50 anos, ele divide sua rotina como médico entre sua clínica em Santa Luzia e em um hospital na vizinha Vespasiano.

16402191_1459107870807185_1943356925_n“Minha vida é casa-trabalho-casa”, resume, enquanto traça planos para seu futuro político. Planos que, se depender de sua família, não irão se concretizar. “Hoje, minha mulher não deixaria que eu me candidatasse. Minha filha odeia política, até porque conviveu com o sofrimento do pai quando era muito pequena”. Ainda assim, o desejo de encarar novamente as urnas permanece incólume. “Vou voltar, sei que vou voltar”, repete ele, quase que como um mantra.

Dr. Gilberto assegura que tal vontade passa longe de qualquer sentimento de euforia que porventura surgiu quando venceu as eleições. “Senti foi uma responsabilidade enorme, principalmente porque ganhei do Calixto, que era considerado imbatível, um mito”. Ele se recorda de quando percebeu, de fato, a dimensão dessa responsabilidade. “Na semana após a eleição, fui em um jogo do Cruzeiro no Mineirão. No final, o locutor do estádio anunciou o público presente, 64 mil torcedores. Praticamente o mesmo número de votos que eu tive. Foi aí que compreendi o tamanho de minha missão”.

Para o povo de Santa Luzia, a vitória de Dr. Gilberto em 2008 representava renovação. Um político novo, um médico que curasse as feridas da cidade. Seus erros culminaram no retorno de um grupo que, pensava-se, nunca mais comandaria a cidade novamente. Tanta expectativa talvez explique a contundência das críticas que, até hoje, são atreladas a seu nome. Se vai conseguir superar isso? Só o tempo – aquele mesmo por ele prescrevido como melhor remédio – irá responder.

 

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