O documentarista luziense Lucimar Pacheco relembra seus trabalhos e lamenta abandono cultural de sua cidade natal

16388721_1090016851110541_1722518018_oProduzir um documentário é emprestar seu olhar para retratar a vida alheia. Imprimir sobre o fato a sua identidade e deixar a sua marca no mundo. Essa foi a intenção do luziense e geógrafo Lucimar Pacheco quando idealizou e produziu as tramas Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos (2012), Lixo ou Luxo (2013) e A Bíblia de Pedra (2015).

O registro por meio de filmagens marca despretensiosamente os lugares por onde passa e a sua ligação com o meio ambiente. Travessias à Lapinha da Serra- MG, viagens internacionais, momentos em família e profissionais podem ser conferidos em seu canal no Youtube .

Seu primeiro documentário, por exemplo, explorou uma das maiores festas religiosas de Minas Gerais, o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, celebrado na histórica cidade de Congonhas desde 1760. A festa, além de atrair mais de 100 mil romeiros a cada ano, também é uma grande atração comercial para os feirantes.

(Fotografia: arquivo/Lucimar Pacheco)

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Andanças

“Essas produções têm muito a ver com o meu trabalho. Eu estava fazendo consultoria ambiental lá em Congonhas, acabei morando lá por cerca de seis meses e me encantei com a parte histórica da cidade. Isso foi justamente no período da festa. Conversei com alguns organizadores e moradores e fiz um documentário que conta um pouco da história das pessoas que vão para pagar promessas e sobem a escadaria de joelhos. Também acabei tendo muito contato com os feirantes, que tomam parte da cidade nesse período. É uma mescla de religião com comércio, além da história de vida de cada um. Várias dessas histórias mexeram comigo”, disse.

Outro lugar explorado pelo geógrafo em seus estudos em cavernas foi a cidade de Montalvânia, localizada no Norte de Minas, bem na divisa com a Bahia. A exploração mereceu o registro devido às pinturas rupestres e os picoteamentos existentes no sítio arqueológico local. Melhor trabalhado que suas obras anteriores, A Bíblia de Pedra precisou de uma equipe maior e até de financiamento coletivo para ser produzido.

(Fotografia: arquivo/Lucimar Pacheco)

10616157_683873845014919_8952474482614052973_n“Quando eu cheguei na cidade pela primeira vez, fiquei espantado com o arsenal arqueológico que o lugar possui. Tem caverna com quatro ou cinco mil desenhos rupestres. As pinturas foram talhadas na pedra. Fiquei encantado e reparei que havia poucos estudos sobre o lugar. Mas, para retornar à cidade, precisava de uma equipe e não tinha grana pra isso. Fizemos uma campanha em um desses sites de financiamento coletivo e levantei R$ 3.500,00, o que pagou passagens e alimentação. Com a prefeitura de lá, conseguimos hospedagem e deslocamento interno. Mas sem colocar nada no bolso, todo mundo trabalhou de forma voluntária”, relembra.

Santa Luzia na pauta

De seus três documentários, o único que tem ligação direta com Santa Luzia é “Lixo ao Luxo”, título emprestado de uma música da banda Charlie Brown Jr. Lucimar conta a rotina do catador de materiais recicláveis Celso Lucio, morador do bairro Cristina. O documentário foi produto do trabalho de conclusão de sua pós-graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

(Fotografia: arquivo/ Lucimar Pacheco)

261323_4672577424581_299463656_n“Acordar todos os dias às 5h da manhã, sofrer preconceitos e, mesmo assim não desistir, é a rotina do Celso. Ele conta tudo isso no documentário. E nos mostra como é possível construir uma vida inteira apenas com o dinheiro ganhou com a venda dos materiais recicláveis. Hoje ele comprou a sua casa, um carro para o filho e tem um restaurante na Avenida Brasília. É uma pessoa muito digna e com muita disposição”, testemunha.

(Fotografia: arquivo/ Lucimar Pacheco)

562216_4672577904593_293144771_nOnde tudo começou

Os caminhos que levaram Lucimar aos documentários, ao curso de geografia e até a sala de aula como professor passam pelos trilhos da militância política. Acreditar que o indivíduo e o coletivo podem transformar o país modificou o seu olhar.

“Antigamente, tinha ensino técnico e na época eu escolhi contabilidade, então não estudei Geografia no ensino médio. Mas no cursinho eu comecei a pesquisar mais e achei fantástico. Eu era militante político na época e me envolvi muito com a área humana e social da Geografia. Hoje, estou mais inclinado para a área física e ambiental”, confessa.

De acordo com ele, que na época era comunista ferrenho e militante do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), a crença que se tinha era de que não seria uma pessoa, um presidente, um governador, um grupo de deputados ou vereadores que decidiriam pela vida de todas as outras pessoas. “A gente acreditava que por meio de conselhos, organizações estudantis, moradores de bairro, sindicatos, a gente conseguiria governar e fazer o nosso mundo”.

Hoje, fora do partido e da sala de aula, que também era encarada como forma de militância, ele ainda acredita que existem milhares formas de se envolver. “Politicamente eu permaneço de esquerda. Acredito em uma sociedade diferente da que a gente vive, com outro sistema que não o capitalismo. Não acredito muito em eleições. Acho que ou a gente tem uma reforma total no nosso sistema ou a gente não sai do lugar. Voto pois sou obrigado”, admite.

Olhar para a cidade

Incubador de projetos e amante da cidade, Lucimar planejava um ensaio sobre os pontos turísticos e de marco histórico de Santa Luzia. Mas precisou abrir mão da ideia quando percebeu o abandono a lugares como a Fonte dos Camelos – hoje revitalizada pela prefeitura-, o Muro de Pedras e a antiga estação.

A decepção, no entanto, não fica só nesse plano.  “Eu sempre morei aqui e fico muito triste com a quantidade de lixo que tem na cidade, entulho, a falta de um código de postura que seja cumprido. Não precisava ser assim. A cidade tem um potencial incrível para diversas coisas. Aqui já teve um carnaval famoso, hoje não tem mais nada”, lamenta.

Para ele, é preciso que as pessoas se unam e cobrem melhorias básicas em relação à rica cultura que a cidade esbanja, mas que não é cultivada. Como geógrafo, ele sintetiza seu ponto de vista prático – e político. “O município poderia ter um parque ecológico que serviria de atração turística. Onde? Na mata preservada perto da escola Raul Teixeira, que hoje segue sendo ocupada sem o mínimo de planejamento. O canal poderia ser transformado em pista segura de caminhada. A cidade tem potencial, mas não aproveitam. Sem falar no lado artístico e cultural. Se você der uma voltinha, encontra um monte de banda legal, de poetas. Mas as pessoas precisam cobrar também”.

 

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