dsc01963Flexibilidade. Palavra que o corpo e a alma de uma bailarina clássica não só decora, mas sente. Gravada em sua memória afetiva, a vontade e necessidade de mudança constante levam a artista Ilma Silvério a se definir como “articuladora de universos diferentes”. Ela traz para Santa Luzia contribuições culturais que unem o erudito com o popular e o poder público com grupos informais da cidade.

Com uma trajetória incomum e inquietante, Ilma iniciou-se no mundo das artes e da luta política com uma banda de garagem chamada Filhos de Freud onde era vocalista. E, desde então, percorreu muitas trilhas: balé clássico, artes plásticas e o teatro.

Nascida em Belo Horizonte, onde começou a sua carreira, ela dançou durante sete anos na Companhia SeráQuê? Cultural e, durante esse processo, começou a fazer trabalhos solo. Período fundamental na decisão de trazer para Santa Luzia sua bagagem cultural.

cora0154“Como é natural na maioria dos artistas, a gente começa a ter o desejo de deixar de ser instrumento do diretor e querer falar das nossas próprias ideias. E isso foi o que eu vivi enquanto bailarina e intérprete em uma companhia. Meu corpo era um meio para o resultado de uma ideia proposta por outra pessoa. E aí eu comecei a refletir sobre algumas coisas e percebi que não era coerente eu estar em Santa Luzia e as minhas ações serem todas na capital. Então, desde 1998, eu comecei a transmutar. Fui trazendo as minhas ações artísticas para o município”, contou.

Em setembro de 2003, Ilma foi nomeada Conselheira Municipal de Políticas Culturais de Dança. Cargo em que esteve por oito anos e onde teve oportunidade de entrar em contato com os outros agentes locais de cultura. O que possibilitou o inicio de vários trabalhos com mulheres da periferia, desfiles, mostras e aulas de dança para a comunidade.

A mão que modifica e arte que transforma

Nesse caminho, um dos encontros que Ilma teve foi com o grupo Mulheres Criativas, que nasceu na Igreja Nossa Senhora da Penha, no bairro Palmital e integra o projeto Inclusão Produtiva de prevenção à criminalidade do governo do Estado.

O grupo propõe, além da convivência, a produção de artesanatos. “Fiquei encantada e aí comecei a fazer parte. É um grupo que tem a característica de trânsito das pessoas, já passaram ali várias mulheres com diversas demandas e foram para outros caminhos. Algumas ficaram e estão até hoje. Nesse grupo, a gente tem a prática de chegar e tomar um café juntas. Fazer um momento de convivência. E depois começamos a produção de trabalhos manuais, de artesanato”, disse.

De acordo com ela, o projeto foi contemplado com um recurso que beneficiava a formação, capacitação e compra de matéria prima e maquinário. A ideia era capacitar esse grupo para que ele se tornasse um núcleo de geração de trabalho e renda para as mulheres da comunidade.

Por meio do recurso recebido, Ilma fez um curso de estética e se tornou a estilista do grupo. De aluna, passou a ensinar. Com o objetivo de inserir as mulheres da comunidade na produção, criou uma coleção batizada de A mão que modifica, a arte que transforma, pensada de modo a agregar a história de cada uma das participantes nos bordados criados por elas mesmas.

catlogo-de-roupas-clothing-catalog-8-728

“Cada peça trouxe um elemento significante para a história de vida daquela mulher e, consequentemente, se tornou parte significante para aquela roupa. Ou seja, além da inserção natural com o crochê, com o artesanato de uma forma em geral, ela também nascia com um fragmento da história de cada uma no grupo”, explicou Ilma.

Dessa coleção nasceu o Manifesta 2009, evento realizado na quadra do bairro Setor Seis, onde o grupo passou a dialogar com instituições que tinham esse perfil de estar em contato com a comunidade e com o poder público, bem como com vários segmentos do Governo do Estado.

Além do desfile, protagonizado por meninas e mulheres da própria comunidade, o evento contou com outras atrações, como a exposição de fotos “Reciclando Olhares por Mulheres Criativas” e uma apresentação do grupos de percussão Afro Jhá e de teatro Art Jovem. Houve ainda o balé Passo a Passo e o desfile “O mais belo dos belos”, com a participação de moradores. O Núcleo Circense do Palmital e o Grupo de Dança de Rua Companhia Liberdade completaram a programação que antecedeu o desfile “A mão que Modifica, a Arte que Transforma”.

Resistência em espaços culturais

Outra expressão que uma bailarina e artista negra precisa decorar e sentir, mas dessa vez sem tanta delicadeza, é a sentença resistência. Fazendo o processo inverso, pois, geralmente, o processo de uma bailarina é iniciar o balé ainda na infância e ir se graduando até a profissionalização, Ilma declara que ser mulher e negra  e tentar ocupar espaços sempre foi uma questão muito latente.

“A convite de uma professora e mestre de dança, participei de uma audição na companhia Seráquê? e fui aprovada e convidada pelo diretor para fazer parte do elenco. Busquei aulas de balé clássico, uma dança marcada pelo rigor e que conta com um público bastante especifico. Pessoas de classe média alta e, em sua maioria, brancas. Esse foi um momento de conflitos importantes. Eu me via como uma mulher negra que não tinha esse corpo esguio, longilíneo que o balé clássico pede e nem o cabelo liso que possibilitava um coque perfeito, mas estava ali, naquele lugar. E por méritos! Da minha busca, da minha técnica. A partir daí, percebi que passei por um processo de quase virar uma caricatura de bailarina clássica. As pessoas diziam: ‘olha que bonitinho, uma menina negra’. Ou ‘olha que diferente ela fazendo balé’. E não era isso que eu queria. Tive que desconstruir isso comigo mesma. Eu sabia que era um lugar de pertencimento, sim, de uma mulher negra, de periferia, pobre, que o meu corpo não era aquele corpo, mas que ele também era capaz de produzir todas as técnicas do balé. Que a minha cor e o meu cabelo também poderiam ser o de uma bailarina”, desabafou.

O conflito interno da dança também foi sentido quando Ilma resolveu aprimorar seus conhecimentos nas artes plásticas. “Uma mulher negra, da periferia, se propondo a estudar em uma universidade lá no Mangabeiras, na Guinard e, quando chega na sala, só tem outras duas pessoas negras. Novamente passei por esse olhar de estranhamento”.

Corações e tranças

Curadora da primeira exposição de artes plásticas do município junto ao também artista Paulo Nazareth, Ilma segue na busca pela democratização da arte e traz à tona mais sete artistas da cidade muitas vezes invisibilizados.

A mostra “Distintas Poéticas” revela obras marcantes da artista, como corações feitos de cerâmicas ocas representados de diferentes formas. Pisados, costurados ou em processo de cura. “Nesses trabalhos com os corações, eu objetifico algumas metáforas. Por exemplo, a gente costuma falar que as pessoas tem um coração de ouro, um bom coração ou que o coração está apertado, em frangalhos. E também é um pouco das minhas aventuras e desventuras amorosas. A ideia é trazer uma coisa humana com essas metáforas”, pontuou.

dsc01978Outro trabalho que os visitantes podem vivenciar é a exposição de tranças. Cada um tem uma experiência diferente ao ver um quadro, ao ouvir uma música ou ao analisar uma pintura. Mas as pessoas costumam se perguntar o que passou pela cabeça do artista no momento de produção daquela peça. No caso de Ilma, se aprofundamos um pouco em sua infância, é possível compreender de onde surgiu a ideia da representação de tranças.

dsc01984“Por uma praticidade da vida da minha mãe, eu fui uma criança que usava muitas tranças. Então, resolvi fazer um resgate histórico das minhas vivências. No ano passado, cheguei à conclusão de que tranças têm muito a ver com a minha história, pois são três mechas que se entrelaçam o tempo inteiro. E essa é a minha história. Que se cruza em várias vertentes. Então é um processo de identificação”, disse a ceramista.

A exposição de artes plásticas acontece até o fim do mês no Solar da Baronesa, na rua Direita, centro histórico de Santa Luzia.

 

Comments

comments